O ajudante, Robert Walser — Edição brasileira: Editora ARX, 2003

 

Comprei este exemplar por apenas dez reais de um amigo livreiro, sem saber ao certo o valor real do livro. Pesquisei sobre o autor e fiquei imerso em sua biografia. Robert Walser nasceu em Biel, na Suíça, em 1878. Em 1956, foi encontrado morto, caído na neve, nas proximidades da clínica psiquiátrica de Herisau, onde já morava há vinte e três anos. Publicou O ajudante em 1908, no período de dois anos em que lançou também seus outros dois romances de maior destaque: Os irmãos Tanner e  Jakob von Gunten. Era lido e apreciado por grandes nomes da literatura de seu tempo, entre eles Hermann Hesse e Franz Kafka.

O romance narra os seis meses em que Joseph Marti trabalha na residência dos Tobler (Estrela do Poente), em Bärenswil. Suas funções são as de uma espécie de assistente administrativo do inventor e empresário Karl Tobler, sempre tomado por invenções que não lhe dão retorno, mas que, ainda assim, ele insiste em oferecer a todos os capitalistas que encontra: o relógio de publicidade, a cartucheira automática, a cadeira sanitária e a sonda perfuratriz.

Um ponto fundamental da história é a conexão rápida e arrebatadora de Joseph não só com a mansão dos Tobler, mas também com o vilarejo, com a natureza, com o lago e com suas longas caminhadas. Caminhadas essas que o próprio autor praticou a vida toda, como exercício de contemplação e reflexão — hábito que mantinha quando sofreu o ataque cardíaco que o matou no inverno de 1956.

A dinâmica da família é tradicional: o pai, um homem de negócios; a mãe, responsável pelos afazeres domésticos, auxiliada por sua empregada Pauline, além de cuidar de seus quatro filhos — dois meninos e as meninas Dora e Silvi. Há uma distinção no tratamento dado às filhas: Silvi é tratada com desdém, enquanto Dora é a doce e preferida da senhora Tobler. O próprio Joseph, na parte final do romance, opõe-se ao modo como tratam a pequena Silvi e, não muito depois, entrega-se à candura de uma Dora enferma.

Esse período em que Joseph trabalha na Estrela do Poente, ao lado do senhor Tobler, é também o da derrocada da família, que se vê afundada em dívidas que não consegue pagar, pois os negócios vão muito mal. Com resiliência, gratidão e muita reflexão, Joseph vai aproveitando o que imagina serem os últimos dias naquela residência confortável, com comida farta e charuto quando bem quer — até que as dívidas e a ineficiência das invenções de Tobler levem toda a família à ruína.

A escrita de Walser é contemplativa e descritiva. Não há grandes acontecimentos ou reviravoltas, nem tentativa de choque desnecessário na narrativa. Trata-se de um romance de mais de 300 páginas, com um narrador que, por vezes, se confunde com o próprio Joseph, misturando pensamentos, narração e acontecimentos. Em um tom quase autobiográfico, pode-se dizer que Walser foi um escritor de talento raro e formidável, capaz de fazer com que eu enxergasse, com nitidez, as imagens que, certamente, ele próprio viu com seus próprios olhos — e de me fazer viver as mesmas experiências que Joseph, e talvez o próprio Walser, tenham vivido.

Um dos melhores livros que já li na vida.