Sobrevidas, Abdulrazak Gurnah — Edição brasileira: Companhia das letras, 2022

 

Sobrevidas foi publicado originalmente em 2020, no Reino Unido, e traduzido no Brasil em 2022 pela Companhia das Letras. Em 2021, seu autor foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Abdulrazak Gurnah nasceu no arquipélago de Zanzibar, na Tanzânia, em 1948. Fugiu do país com seu irmão em 1966, durante a perseguição aos cidadãos de origem árabe. No Reino Unido, estudou, trabalhou e publicou seus romances e contos, tendo como foco principal de suas obras o colonialismo no leste da África e suas consequências nefastas.

O romance trata de vidas entrecruzadas, destinos incertos numa terra invadida e subjugada por forças estrangeiras. É uma busca por identidade e pertencimento num cenário desolador e angustiante da colonização alemã na África Oriental. Narrado com maestria pelo autor, Sobrevidas é um relato direto e sem floreios de vidas que se entrelaçam e buscam viver de forma pacífica e esperançosa, deslocando-se, adaptando-se e conjecturando novos horizontes.

A complexidade da psicologia dos personagens surpreende um leitor não acostumado a tamanha densidade. Seus personagens são espectros de um país assolado pela desilusão, num momento de guerra e numa penúria capaz de levar pessoas saudáveis a desejar o fim de suas vidas. Capaz de fazê-los lutar ao lado de seus algozes para ter um lugar onde dormir, um prato de comida, um futuro. Mas nem só de tristeza vivem os personagens: eles são também sonhadores, pessoas buscando a felicidade, buscando resistir e apenas viver um dia após o outro, uma agrura após a outra. Buscam, no trabalho, no cinismo ou na fé, suas forças. Buscam sobreviver numa realidade tão penosa.

“Ninguém é dono do corpo e do espírito de ninguém.” É Hamza quem diz isso a certa altura do romance, deixando claro, no diálogo, que não há vergonha nenhuma em sua vida pregressa e nas coisas que teve de fazer.

Hamza é, na minha opinião, o protagonista do romance, aquele que evoca memórias procurando seu lugar no mundo. Retorna, depois de muitos anos lutando na guerra, à sua terra natal, para ele já irreconhecível. Tudo está diferente: as ruas, as pessoas, a administração da colônia. No entanto, Hamza, apesar de tudo pelo que passou, ainda é o menino que fugiu, que se negou a ser escravizado por seu patrão, que lutou, que se feriu e se desenganou. Retorna ao ponto de partida e, enfim, encontra sua felicidade.